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educação financeira·por Leonam Alves·02 de agosto de 2026·7 min

Desenrola Brasil divide bons e maus pagadores do Fies

Estudantes em dia com parcelas do Fies cobram no Congresso os mesmos descontos oferecidos aos inadimplentes. O dilema do programa de renegociação.

Redação Endinheirados · fontes verificadaspolítica editorial| Publicado em 02 de ago. de 2026, 01:30
Desenrola Brasil divide bons e maus pagadores do Fies
Foto: Foto: G1 Economia · Unsplash
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Quem pagou direitinho as parcelas do Fies está reclamando. E com razão. O Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas que voltou com força em 2026, oferece descontos generosos aos estudantes que deixaram de pagar — enquanto quem estava em dia continua pagando cheio. Os bons pagadores agora cobram na porta do Congresso: por que quem honrou o compromisso não ganha o mesmo alívio?

O programa que recompensa quem não pagou

O Desenrola Brasil foi reformulado neste ano para incluir formalmente os alunos com dívidas atrasadas no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). A ideia é clara: permitir que quem travou possa renegociar o que deve com juros menores e prazos mais longos. Na prática, virou um programa de redução de dívida para quem ficou pra trás.

Os descontos variam conforme o tempo em atraso e o perfil do devedor, mas não é raro ver perdões de 30%, 40%, até 50% do saldo devido. Quem estava inadimplente ganha respiro. Quem estava em dia? Continua na mesma.

A revolta dos que pagaram certinho

Aí entra o problema que ninguém esperava colocar em debate público: os bons pagadores. São estudantes que, mesmo quando a situação ficou apertada, não deixaram a bola passar. Continuaram honrando as parcelas — muitas vezes cortando em outras coisas, apertando mesmo o orçamento. E agora veem o colega que abandonou a dívida ganhar desconto enquanto eles levam a conta integral.

Esses estudantes estão indo pra cima do Congresso pedindo a mesma coisa: reconhecimento. Se o governo quer renegociar com inadimplentes, que negocie também com quem ficou em dia. A lógica é simples e desarmante: ambos têm dificuldade financeira. Por que um merece alívio e o outro não?

Por que o Fies acabou nessa encrenca

O Fies tem uma história complicada. Criado em 1999, o programa emprestou bilhões para alunos de faculdades particulares. Os juros são baixos (diferencial do Fies), mas quando bate desemprego, inflação ou salário curto, pagar em dia vira um desafio de verdade. A inadimplência cresceu, o programa ficou pesado nos gastos federais, e políticos passaram a usar renegociações como moeda de troca.

O Desenrola surgiu em resposta: havia milhões de brasileiros com dívidas travadas, Fies atrasado há anos, sem conseguir crédito novo. Era bloqueio mesmo. A renegociação fez sentido. Mas ao focar nos inadimplentes, o governo criou uma terceira categoria que ninguém pensava: quem estava em dia mas também apertado.

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O que os números mostram

Não tem dados públicos exatos sobre quantos bons pagadores estão nessa situação, mas a reclamação no Congresso sugere que é número significativo. Lembrando que o Fies envolveu milhões de alunos desde 1999. Mesmo que uma minoria tenha procurado o Congresso, provavelmente representa dezenas de milhares.

O que é fato: a inadimplência no Fies atingiu patamares alarmantes antes do Desenrola. Se o governo oferece alívio só pra quem parou de pagar, cria um perverso incentivo futuro: por que não deixar atrasar e ganhar desconto depois?

O que pode acontecer agora

O Congresso está ouvindo o lado dos bons pagadores. A pressão é legítima, mas a solução não é óbvia. O governo pode ampliar o Desenrola para incluir bons pagadores com algum critério (renda baixa, desemprego), oferecer um desconto parcial menor, ou manter como está e deixar a insatisfação crescer.

A chance de ampliar o programa existe, mas depende de espaço fiscal — e 2026 tá apertado. A outra saída é criar um programa paralelo de alívio para bons pagadores de baixa renda, mas aí o governo estaria basicamente criando dois Desenrola.

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