Hapvida derrete mais de 90% na bolsa e vira alerta sobre o setor de saúde
Operadora de planos de saúde acumula perdas anuais de até 56%, analistas abandonam o papel e setor de saúde privado entra em reestruturação.

Hapvida: o pior papel da B3 em 2024
A Hapvida, uma das maiores operadoras de planos de saúde e dona de hospitais no Brasil, virou neste ano o pior papel da B3 (a bolsa de valores brasileira, onde ficam listadas as empresas negociadas no mercado). Desde a oferta pública inicial (IPO) em 2018, as ações já acumulam queda superior a 90%. Pior: nos últimos cinco anos, o papel registrou perdas anuais que variaram de 12% a 56% — sem nenhum ano positivo no período.
O que está derrubando a empresa
Três problemas se somam, e nenhum deles é simples de resolver. O primeiro é o aumento constante dos custos, tanto médicos quanto operacionais, que come as margens (a diferença entre o que a empresa recebe e o que gasta). O segundo é o volume de litígios, ou seja, processos judiciais na área da saúde, que virou uma rotina cara pro setor. E o terceiro é uma dívida que cresce mais rápido do que a geração de caixa.
Traduzindo pra quem não trabalha com saúde suplementar, a operadora vende planos e presta serviços médicos, mas o preço que paga por esses serviços tem subido sem que ela consiga repassar tudo pro cliente final. Quando repassa, perde beneficiários. Quando não repassa, perde dinheiro.
A frase que resume o problema: "parece barato e fica mais barato"
Renato Jerusalmi, sócio-fundador e gestor da Riza Asset Management, descreveu a Hapvida como o que o mercado chama de value trap — uma armadilha de valor. É quando a ação fica tão barata que parece uma pechincha, mas só continua caindo porque a empresa tem problemas estruturais que não se resolvem sozinhos. "Parece barato, e vai ficando mais barato ainda. A Hapvida é esse caso levado ao extremo", disse ele à Bloomberg.
O cenário ficou tão grave que um dos gestores de fundos de ações mais conhecidos do Brasil classificou sua posição na Hapvida, mantida por vários anos, como o "maior erro de investimento da nossa história", segundo a mesma reportagem. Entre os analistas acompanhados pela Bloomberg, apenas um ainda recomenda a compra do papel. Os demais veem risco demais pra justificar o preço atual.
A Hapvida não está sozinha: o setor inteiro adoeceu
A crise da Hapvida não é um caso isolado. Ela reflete um quadro maior do setor privado de saúde no Brasil, que passou por uma fase de expansão forte durante a pandemia de Covid-19, com fusões, aquisições e abertura de hospitais, e agora lida com o peso dessas decisões. Empresas como Kora Saúde, Alliança Saúde e Oncoclínicas estão em reestruturação extrajudicial (um processo legal em que a empresa tenta renegociar dívidas com credores antes de decretar falência) depois que o endividamento virou insustentável.
Na prática, todo mundo que comprou plano mais barato durante a pandemia tá pagando, junto com as operadoras, a conta da expansão que veio depois.
O dilema que a Hapvida não consegue escapar
O desafio central da operadora é decidir como reagir ao aumento dos custos. Basicamente, ela tem duas opções, e as duas doem:
- ✓Repassar os aumentos aos clientes, o que pode fazer com que parte dos beneficiários cancele o plano, já que a base da Hapvida é formada por clientes sensíveis a preço
- ✓Absorver os custos e ver as margens encolher até comprometer o caixa, o combustível que mantém qualquer empresa de pé
"A dúvida não é só se a empresa vai conseguir executar o repasse, mas quanto vai custar em termos de perda de beneficiários", disse Jerusalmi. É a definição clássica de escolher entre duas portas ruins.
O que observar daqui pra frente
Os próximos trimestres vão mostrar se a Hapvida consegue reajustar preços sem perder base de clientes e se o volume de ações judiciais começa a recuar. Quem acompanha o papel de perto também vai olhar pra relação entre dívida e geração de caixa, que costuma decidir se uma empresa em crise sobrevive ou pede recuperação.
Enquanto isso, o setor de saúde como um todo segue em modo de contenção. Se mais uma operadora grande entrar em reestruturação, o efeito colateral pode chegar ao consumidor em forma de menos opções de plano, redes menores e reajustes mais agressivos. Por enquanto, o recado do mercado pra Hapvida tá na cara: enquanto os problemas não forem resolvidos de verdade, barato demais pode ser armadilha.
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