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educação financeira·por Equipe Endinheirados·10 de julho de 2026·7 min

Consignado congelado: teto de juros afasta banco privado e prejudica negativados

Crédito consignado privado recua 29% em dois meses após teto de juros. Quem deveria se beneficiar fica fora do sistema.

Redação Endinheirados · fontes verificadaspolítica editorial| Publicado em 10 de jul. de 2026, 09:30
Consignado congelado: teto de juros afasta banco privado e prejudica negativados
Foto: Foto: Finsiders · Unsplash

O crédito consignado privado despencou 29% em apenas dois meses. O detalhe que machuca: justamente quem mais precisava dessa linha de crédito saiu ainda mais para trás. Negativados e trabalhadores de baixa renda, aqueles que o modelo deveria incluir, estão sendo excluídos do sistema agora que há um teto de juros no jogo.

O paradoxo da proteção ao consumidor

Em 2024 e 2025, o governo tentou frear o consignado privado impondo um teto de juros. A lógica era clara: evitar que gente desesperada pegasse dinheiro a taxas abusivas. Parecia proteção. No papel, era. Na prática, criou um vácuo.

Quando você coloca um teto de juros em um produto de risco alto, tá falando pro banco: 'Ganhem menos ou saiam do jogo.' E o banco, previsível como sempre, escolheu sair. Ou ficar tão seletivo que exclui a maioria.

Por que o consignado privado é diferente do público

Aqui entra a distinção importante. O consignado público, oferecido por bancos estatais e instituições federais, tem garantias que o privado não tem: o empregador desconta direto na folha, então o risco é menor. O consignado privado, esse sim, é uma aposta. O cliente pode sair do emprego, pode deixar de pagar, desaparece do mapa.

Antes do teto, bancos privados compensavam esse risco cobrando juros altos, mas aceitavam clientes de perfil arriscado. Negativados, informais, gente sem histórico de crédito limpo. Não era bonito, não era justo, mas existia. Era acesso a quem ninguém mais abria porta. Hoje, com margem comprimida, esses bancos simplesmente fecham a porta. Só aprovam quem tem perfil impecável. E aí fica a pergunta que não quer calar: qual é o ponto de um crédito de risco se ele só serve pra gente que não precisa?

O crescimento que não vai acontecer

De acordo com a análise da Finsiders, a indústria do consignado poderia quadruplicar de tamanho se tivesse acesso maior ao mercado. Mas esse crescimento depende, precisamente, daquele cliente de alto risco que agora ficou de fora.

As concessões caíram 29% em dois meses. Se mantiver esse ritmo, estamos falando de um setor encolhendo, não expandindo. E a ironia feroz é que essa queda atinge exatamente os negativados e os trabalhadores de baixa renda. Aqueles que o teto de juros teoricamente deveria proteger acabaram sendo punidos por ele.

Quem perde nessa conta

O trabalhador de baixa renda que antes podia recorrer ao consignado privado pra sair de uma emergência agora tem menos uma opção. Volta pro carnê, pro empréstimo de amigo, pro agiota. Ou fica sem sair do buraco.

Os bancos privados perdem clientes de alto risco e têm que explicar isso pro acionista. O governo perde a arrecadação indireta. O consignado público fica ainda mais disputado, porque agora é a única porta aberta que não deu ruim. E o consignado privado, que poderia crescer, fica estagnado.

O que vem agora

Essa história aponta uma tensão estrutural no mercado de crédito brasileiro. Políticas de proteção ao consumidor são necessárias, certo. Mas quando são desenhadas sem levar em conta o incentivo do outro lado do mercado, elas podem ter efeito completamente oposto ao pretendido.

Se o cenário não mudar, a tendência é mais contração mesmo. E gente com score baixo vai continuar ficando de fora, não porque o banco quer fazer maldade, mas porque o banco simplesmente não consegue ganhar dinheiro oferecendo crédito a ela dentro das regras que o governo definiu.

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