Você investe em FIDCs sem saber: a armadilha dos fundos dentro de fundos
Fundos de crédito estão escondendo investimentos em FIDCs para inflar retornos. Entenda por que você pode estar exposto a riscos que não conhece.

Você abre o extrato do seu fundo de crédito, vê um retorno interessante, e acha que tudo está sob controle. Mas há uma chance real de você estar investindo em algo que nem sabe que existe: FIDCs, ou Fundos de Investimento em Direitos Creditórios. E a razão é tão simples quanto preocupante: os gestores estão usando esses fundos como um atalho para melhorar os números sem precisar ser totalmente transparentes sobre o risco que você está assumindo.
O que está acontecendo na prática
Segundo dados do mercado, fundos de crédito tradicionais estão cada vez mais recorrendo a FIDCs em suas carteiras. O raciocínio parece lógico: se um fundo de crédito investe em outro fundo de crédito que, por sua vez, investe em recebíveis (como direitos de pagamento de pessoas físicas ou jurídicas), o retorno pode ser maior. Mais retorno significa números melhores pra apresentar aos cotistas. O problema é que essa estrutura em camadas cria um risco que fica invisível pra quem investe.
FIDCs são fundos especializados em comprar direitos creditórios. Isso pode ser desde uma dívida de cartão de crédito até um contrato de recebível de uma empresa. Quando um fundo de crédito comum coloca seu dinheiro num FIDC, ele está comprando uma fatia desses riscos empacotados. Se algo der errado nos recebíveis lá no fundo, o prejuízo cai na sua carteira.
Por que os gestores fazem isso
A concorrência entre fundos de crédito é feroz. Todo gestor quer mostrar um retorno maior que o concorrente. Mas quando você esgota as oportunidades de crédito direto e de qualidade, tem duas opções: ou você mantém um retorno mais conservador, ou você topa riscos maiores pra tentar bater a meta. Os FIDCs oferecem um terceiro caminho: retornos aparentemente maiores sem parecer que você está se arriscando tanto.
Isso não é, tecnicamente, proibido. Os fundos divulgam em seus prospectos que podem investir em outros fundos. Mas quantos cotistas realmente leem aquilo? E quantos entendem a cascata de riscos que está acontecendo por trás?
O risco da cascata
Imagine isso como bonecas russas de risco. Você investe num fundo de crédito. Esse fundo investe numa fatia de um FIDC. O FIDC investe em recebíveis de uma fintech de crédito. Se a fintech começa a ter calotes em massa, o FIDC sofre. O fundo de crédito sofre. Você sofre. E em cada camada, há uma taxa sendo cobrada, o que significa que o retorno que chega até você é menor do que o retorno bruto gerado pelos recebíveis.
Além disso, há um problema de falta de informação. Muitos investidores não sabem dizer qual é exatamente a carteira do seu fundo de crédito. Você sabe quanto do seu dinheiro está alocado em FIDCs? Você sabe quais são os recebíveis que estão dentro desses FIDCs? Provavelmente não. E isso é um problema real.
O que os números mostram
O volume de captações em FIDCs cresceu significativamente nos últimos anos. Esses fundos viraram uma ferramenta de escolha pra diversificação de carteiras. Mas quando você cruza isso com o crescimento de investimentos de fundos em fundos, fica claro que há uma tendência: em vez de buscar recebíveis melhores, muitos gestores estão preferindo repassar o trabalho pra terceiros e cobrar uma taxa por isso.
O impacto na sua carteira é duplo. Primeiro, você paga taxa do fundo de crédito original. Depois, paga taxa do FIDC. Isso reduz seu retorno líquido de forma sensível ao longo do tempo.
O que você deveria fazer agora
Se você investe em fundos de crédito, é hora de fazer uma verificação básica. Vá no site da sua corretora ou do seu banco, encontre o prospecto do fundo e procure pela seção de composição de carteira. Veja quanto está alocado em FIDCs. Se for uma parcela significativa (acima de 20%, digamos), vale a pena conversar com seu consultor ou gestor pra entender melhor qual é o retorno esperado, qual é o risco real, e se faz sentido pra você.
Não é que investir em FIDCs seja ruim em si. Mas quando você investe sem saber que está fazendo, o risco deixa de ser uma escolha informada e vira uma surpresa desagradável. E em finanças, surpresas desagradáveis costumam vir acompanhadas de prejuízos.
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