Crédito consignado congela e deixa negativados sem acesso
Teto de juros no consignado privado causa queda de 29% em concessões e afasta justamente quem mais precisava: trabalhadores endividados e de baixa renda.

O teto de juros no crédito consignado saiu do papel e trouxe uma ironia perversa: a medida que prometia proteger o trabalhador endividado acabou fechando a porta exatamente na cara de quem mais precisava. Em dois meses, as concessões caíram 29%, segundo a Finsiders. E os maiores atingidos são negativados e trabalhadores de baixa renda, justamente o público que o modelo deveria incluir.
O que aconteceu com o teto de juros
O governo estabeleceu um limite de quanto os bancos privados podem cobrar por crédito consignado, aquele descontado direto da folha de pagamento. A ideia fazia sentido: impedir abusos de taxa. Só que quando você reduz quanto um banco ganha, ele naturalmente reduz o risco que tá disposto a correr. E quem sai mais perdendo nessa conta? Quem tem histórico ruim de crédito.
Bancos privados precisam lucrar. Se não conseguem mais tirar tanto de cada empréstimo por causa do teto, eles simplesmente emprestam menos. E com quem? Com quem oferece menos risco. Não com quem está negativado há três anos e precisa desesperadamente de grana.
A contradição que ninguém esperava
O crédito consignado era conhecido por ser mais acessível que outras linhas justamente porque o banco desconta direto do salário. Zero risco de você sumir. Mesmo que você tivesse restrição no CPF, era possível conseguir. Era um fio de salvação pra quem não tinha outra opção.
Agora, com as concessões caindo, esse fio tá cada vez mais fino. Enquanto isso, o consignado pode quadruplicar de tamanho entre clientes de boa reputação de crédito, aqueles que bancos públicos já atendiam bem. Ou seja: a medida tá concentrando crédito justamente onde ele menos era necessário.
Quem sente na prática
Um trabalhador negativado que ganha dois salários mínimos por mês num consegue mais crédito consignado. Ele provavelmente vai tentar outras linhas: cheque especial, rotativo do cartão, empréstimo com intermediário. Todas significativamente mais caras. A ironia completa é essa: tentar escapar do teto de juros o leva direto pra juros muito piores.
Pequenos empreendedores, mototaxistas, entregadores de app, gig workers em geral sofrem ainda mais porque muitos nem mesmo têm registro formal de renda que justifique um empréstimo tradicional. O consignado era uma das poucas alternativas que funcionava.
O que os números dizem
Uma queda de 29% em dois meses não é flutuação normal de mercado. É uma retração brusca que mostra que a política, do jeito que foi desenhada, tá tendo o efeito oposto ao pretendido. O consignado poderia quadruplicar, segundo a Finsiders, mas apenas pra quem tem score de crédito alto.
Isso traz um cenário interessante: o mercado de crédito consignado volta a crescer, mas extremamente polarizado. De um lado, quem já tinha acesso fácil fica com acesso ainda mais fácil e barato. Do outro, quem estava à margem fica ainda mais à margem.
O que vem a seguir
O governo pode tentar ajustar a medida, aumentando o teto de juros pra estimular concessões, ou criando subcategorias pra negativados e baixa renda. Mas isso tudo demora e, enquanto espera, o endividado segue buscando alternativas piores. A lição aqui é que teto de juros é ferramenta importante, mas sem pensar no efeito em cascata acaba prejudicando exatamente quem se pretendia proteger.
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